terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cansado






" A gente corre. Para ganhar ou perder a vida? Resta cantar aquele velho Roberto Carlos.






(...)Essa escassez de tempo está clara agora, pouco mais de nove horas da manhã de segunda-feira, na desordem absoluta sobre a escrivaninha. Pilhas de cartas não respondidas, livros que só comecei a ler e não consigo terminar (uma Susan Sontag aqui, um Edmund Wilson ali), se olhar para o lado, há pilhas de discos não ouvidos (conseguisse alguns segundos para aquele U2, aquele Raul Seixas...). E A VIDA GRITANDO NOS CAMPOS .


Os amigos se queixam: você não telefona, não aparece. Tem gente que pede release, reportagens, textos os mais diversos, apresentações para exposições, ler originais, e os que exigem coisas do tipo: você não vem ver a minha peça? Como bom ascendente Libra, não sei dizer não. Digo sempre sim, depois não consigo cumprir. Cobram, cobram. Ultimamente , toda vez que o telefone toca, já sei: é alguém pedindo alguma coisa. Têm me pedido muito, ultimamente. E dado pouco. Normal: gente é assim mesmo.


Agora você me pergunta: bom, e daí? Daí que ando cansado. Hoje estou me permitindo escrever sobre este cansaço indivisível, sobre minha falta de tempo, sobre a desordem que instaurou em minha vida. Por trás disso tudo, o mais perigoso espreita: a grande traição que estou cometendo, todo dia, comigo mesmo. Porque escrevendo assim, para sobreviver, não escrevo o que me mantém vivo - outras coisas que não estas.


O relógio avançou. Já cheguei nas minhas cinquentas linhas semanais. Amanhã vamos embrulhar peixe na feira. Tomo um café, acendo um cigarro. Durante um minuto, fico pensando sem parar.


Parar como param os monges budistas. Parar e olhar. Só um minuto. Pronto: agora tenho que sair correndo outra vez para ganhar a vida. Ganhar ou perder? Eu sei a resposta. Mas posso cantar baixinho um velho Roberto Carlos, aquele assim: "Querem acabar comigo/ isso eu não vou deixar". Juro que não"










Este é um fragmento de uma crônica escrita por Caio Fernando Abreu no jornal O Estado de São Paulo em 29/04/1987, e que faz parte de uma coletânea de crônicas que ele escreveu nesta época e que foram juntadas no livro A VIDA GRITANDO NOS CANTOS da Editora Nova Fronteira, e que me foi dado como presente no dia 11/11/2012. Só que não foi um presente qualquer, pois este texto que foi transcrito aqui, significa nada mais o que foi a minha vida nos últimos-vários-meses e que não conseguia transcrever de maneira nenhuma. Você deve estar se perguntando: e daí? E daí que nada. Só queria deixar registrado aqui um pedaço da minha vida que estou lutando para mudar, reverter todo esse cansaço, que se instaurou em mim por conta do sobreviver, fazendo com que eu me esquecesse do mais importante: o viver.

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